A não naturalidade de respirar



Em 2011 eu e uns amigos criamos uma república numa pequena casa afastada da universidade. O nosso amigo arquiteto fez da sala com teto de vigas de madeira um templo confortável e incrível onde nos reuníamos por horas e perdíamos o sono conversando e falando sobre o mundo, comendo, tomando chá, deitados sobre os tapetes e almofadas coloridas.
Foi lá que descobri que tinha síndrome do pânico, foi lá que descobri que meu coração era budista, foi lá que descobri que eu amava chá branco.
E foi lá que descobri que não conseguia meditar e não sabia respirar.
Há quem diga que a respiração é uma coisa natural.
Não é.
Você puxa o ar, você expira o ar. Mas... é só isso?
Quando eu era pequena sofria de bronquite. Há várias lendas sobre a bronquite, e uma delas é que você a tem para sempre, embora ela suma quando você entra na adolescência e você nunca mais tem crises de novo. Há outra que fala que se a filha mais velha tem bronquite, a filha mais nova tem problemas de pele – e isso foi contado para minha mãe pela dermatologista da minha irmã, que desde pequena sofre de misteriosas alergias incuráveis na pele.
As curas e tratamentos são passados pelas famílias como receitas caseiras de resfriado. Colocar a criança bem cedo na natação, fazê-la soprar água para fora de uma garrafa pet usando um cano, para treinar o pulmão. Colocar tijolos na cabeceira da cama para incliná-la. Tapotagem, saunas, vaporizadores, inalações, bênçãos.
O médico dizia que as minhas crises de bronquite eram trazidas por fatores emocionais. Quando eu tinha passeio da escola, por exemplo, era costume eu ficar tão ansiosa que me faltava o ar. Eu tinha medo de perder o dia do passeio, tinha medo de me perder da professora, tinha medo de não conseguir voltar para casa.
Eu tinha medo, e o medo me trazia a falta de ar.
Minha mãe falava que um gato morava dentro do meu peito. Quando ela me via estrangulando para puxar para dentro o ar ela me chamava e falava:
-- Vamos ver como está esse seu gato – e colocava a orelha nas minhas costas e me pedia para respirar fundo. Até mesmo eu podia ouvir o chiado que vinha dos meus pulmões. O gato arranhava, querendo sair. Ele precisava de ar tanto quanto eu, mas não conseguia obtê-lo. Nós dois nos arranhávamos desesperadamente enquanto eu puxava com toda força os músculos do peito para tentar fazer entrar ar dentro de mim.
Então eu fazia longas sessões com o inalador, que era um dos meus melhores amigos quando criança. Inalação com soro fisiológico e berotec. 10ml de soro, seis gotas de berotec. E eu ficava horas inalando a fumaça com uma máscara transparente, sendo ninada pelo som profundo e rouco do motor no inalador e depois pela tremedeira que o remédio me dava.
Eu adormecia sentindo entrar no peito o perfume doce do ar, e agradecia por finalmente conseguir abrir os pulmões.
Respirar nunca foi uma coisa simples para mim.
Mas assim como diz a lenda, assim que entrei na adolescência a bronquite nunca mais mostrou as caras, e achei que meus problemas respiratórios tinham acabado.
Mas naquela sala bem decorada da república decidimos um dia fazer uma sessão conjunta de meditação, e foi quando descobri que não conseguia meditar.
Eu não conseguia realizar alguns passos simples de respiração. Quanto mais eu tentava respirar pelo abdômen mais nervosa eu ficava e mais falta de ar eu tinha. Dizem que a respiração abdominal é calmante e a mais fácil de todas, mas para mim era simplesmente impossível. Mas eu não queria desistir. Fiquei tentando me concentrar na meditação por vários minutos, e os minutos se tornaram meia hora e eu ainda não tinha conseguido avançar os primeiros passos da meditação. Eu comecei a sentir fortes dores do ombro, tontura, e conforme eu tentava respirar e uma pontada aguda começava no meu diafragma eu passei a achar que tinha algum tipo de problema físico. Poxa, era uma respiração abdominal, os bebês fazem isso, pelo amor de deus.
Desisti.
Fui progredindo na meditação do jeito que consegui, sentindo-me horrível, uma trapaceira da meditação. Tive visões horríveis – e esta é uma história que fica para outro dia – e, no final, a minha primeira vez meditando foi tão traumática que acho que inconscientemente não tenho vontade de repetir a experiência até hoje.
Alguns dias depois descobri que eu tinha ataques de ansiedade e nunca ninguém tinha me dito aquilo. Foi com grande frustração que descobri que a respiração é a chave para se acalmar, e, com maior horror ainda, que a respiração abdominal era a que mais ajudava.
Parecia que eu estava fadada a padecer de ataques de pânico pela culpa de não saber respirar. Eu respirava errado, era fato. E desde pequena! Parecia que ninguém tinha se dado ao trabalho de me ensinar algo tão básico para um ser humano.
No que se seguiu eu tentei e tentei várias técnicas de respiração – verdade que nem todas as vezes seguida de um profissional, mas mesmo assim... -- e nenhuma pareceu me ensinar como eu deveria fazer isso. O pânico vinha assim que eu falava para mim mesma “certo, agora vamos nos concentrar na respiração”. Sim, logo do começo, assim que eu pensava em começar a respirar de outro jeito eu já ofegava.
Depois de um tempo cansei das tonturas, cansei de ficar puxando o ar como se estivesse me afogando, cansei das dores que aquilo me dava e cansei de tentar aprender a respirar.
Viria essa incapacidade por causa da minha bronquite? Ou viria a bronquite por causa da minha já inata incapacidade de respirar? Viria tudo isso do medo que me acompanha desde pequena? Seria um tipo de problema físico?
Um problema psicológico, certamente, mas quando começara? Como eu poderia corrigir isso?
E só de pensar isso tudo já estou com falta de ar.

Imagem: Mira Nedyalkova

Bruna Karnauchovas

Um dia quando era pequena minha mãe abriu um livro e falou “Era uma vez” e depois nunca mais voltei a ser a mesma.

Um comentário:

  1. Fiquei com falta de ar só de ler. Consigo sentir todas as agonias e até me lembro de como era adormecer com o som do inalador. Eu estou fadada á asma para sempre. É hereditário e não sumiu na adolescencia. Quando fico muito ansiosa o mundo parece que vai acabar.
    Estou planejando minha primeira viagem pro exterior e eu já estou sentindo o nervosismo tensionando meus pulmões.
    Li seu texto até o fim, pensando que teria alguma tecnica para se acalmar e bem... Vejo que temos o mesmo problema.
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